domingo, 29 de setembro de 2013

Os bits imitam a vida



Participando de um seminário sobre educação me inscrevi em uma mesa-redonda sobre  a temática ‘tecnologia e educação’ (alguma coisa assim). Imaginei que ali fossem ser discutidas formas de como usar as tecnologias na sala de aula e aproveitar o seu melhor para despertar o interesse dos alunos para a disciplina e estimulá-los ao aprofundamento do tema proposto.
Acho que meu deficit de atenção me traiu mais uma vez e qual não foi minha surpresa, o debate se deu em torno de como as tecnologias podem ser prejudiciais para o bom aproveitamento das aulas e das relações. Um misto de inquisição e conselho de classe escolar onde bravos professores, batendo no peito, cheio de orgulho, falavam sobre como combater o uso impróprio do celular e as punições que advinham dessa ação.
Claro, que o uso improprio das tecnologias atrapalha o bom andamento das aulas e não favorece o aprofundamento das relações interpessoais. É óbvio que o toque indiscriminado do celular e o atrativo dos ipads, ipods e smartphones desviam a atenção, irritam e incomodam a todos.

Os bits imitam a vida. Não são nossos celulares e aparelhos diversos que são mal educados, somos nós. A Internet não é perigosa, o mundo o é. As relações não se acabam por conta do facebook, que “aproxima quem está longe e distancia quem está perto”, nosso egoísmo e nossa incapacidade de adiar prazer  é que afastam as pessoas. O Instagram  não é responsável por nosso desejo incontrolável de mostrar a todos como somos felizes, nos divertimos e comemos bem.
O  CTRL-C, CTRL-V sempre existiram. Lembro-me das pesquisas feitas por mim na época de estudante do ensino básico onde abria apenas um livro com conteúdo indicado para estudo e quase que aleatoriamente marcava com o dedo (sem leitura prévia) até aonde iria copiar. A culpa não é das teclas e sim do modelo de pesquisa passado pelos professores e do comprometimento do estudante.

É tudo muito novo e ainda não aprendemos a lhe dar com essa tecnologia mutante que não nos oferece tempo para dominá-la. Talvez nunca consigamos. Negá-la, só nos distanciará cada vez mais dela mesma e dos nossos jovens que parecem ter nascido com um chip de reprogramação automática ao nascimento da cada novo equipamento ou programa.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Lá ele, no Beirú



Na Bahia, a expressão “lá ele”, quer dizer “em mim não, em outra pessoa”. De uma forma geral tem conotação sexual. E é uma expressão que rebate o duplo sentido de frases que nós baianos sempre nos apressamos em rejeitar. “Lá ele”, é algo que eu nem desejo para alguém conhecido. “Ele”, é alguém distante, alguém que não conheço.
Alguns exemplos dessa expressão:
Você TOMOU cerveja?  “Lá ele, eu não tomo nada, eu bebo”
Que calor SENTE-SE aqui!  “Lá ele, estou bem de pé mesmo”

João Jorge Amado, em seu livro Lá ele ou o Esparro na Bahia,  associa  a expressão a uma cilada, arapuca, armadilha (Sinônimos de Esparro). Pois é, baiano aqui fica esperto, não cai em esparrela.  Mas sempre tem um sabido que tenta nos pegar (lá ele).
O governo do Brasil e da Bahia parece que, assimilaram essa expressão rapidinho e mandam outras pessoas para locais onde ele não consegue, ou não quer, resolver o problema principal. Um exemplo disso é o Programa Mais Médico, do Governo Federal: não tem hospital equipado, não tem equipe de apoio, não tem medicamentos... e o governo diz: vou mandar lá ele aí, sozinho, resolver o problema.

Aqui em Salvador, o Bairro de Tancredo Neves (antigo Beirú), um dos mais violentos da cidade, onde na semana passada, traficantes queimaram 5 ônibus e 1 moto no final de linha em represália a operação Centauro, da SSP-Ba que ainda está acontecendo. Onde a polícia só entra em grupo fortemente armado; onde os motoristas de ônibus se recusam a completar a viagem até o fim de linha por medo; onde moradores são impedidos de passar em determinadas ruas e onde repórteres são desaconselhados a entrar no Bairro. Esse é o lugar que a Secretaria de Educação quer forçar os professores a voltar as aulas sem nos oferecer nenhuma garantia.
 
De certo, a comunidade é a mais penalizada com tanta violência. Mas não dá para transformar a atividade profissional em uma atividade de risco. Trabalhamos para ganhar a vida! É fácil fazer valer um calendário letivo a partir de uma sala com ar-condicionado dentro de uma repartição pública. É só mandar que LÁ ELE vai sair da sua casa para dar aula no meio do fogo cruzado.







quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Onde estão os Amarildos?





A despeito do sumiço do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, na favela pacificada da Rocinha, no Rio de Janeiro, o governador Sérgio Cabral afirmou que “antes da UPP, sumiam 100 Amarildos todos os meses”.  Os comentários que se seguiram a essa reportagem do Uol Notícias me fizeram lembrar de um personagem de Chico Anysio , o político Justo Veríssimo que tinha como bordão: “Eu odeio pobre!”,  “ Eu quero é que o pobre se exploda!”.


Em outro momento, Caetano Veloso, em sua música Haiti já denunciava: “E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo/Diante da chacina/ 111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos/.../E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos “.


O sumiço de um ou de cem Amarildos, a morte de um ou cento e onze presos e a nossa sociedade diz: “eu não me importo”; “não é comigo, ele era traficante”; “eu quero que pobre se exploda”. 



Nós elite, classe média ou não, pagadores de impostos, que conquistamos nosso patrimônio com tanto esforço, inventamos a miséria. A favela é nossa filha. Durante anos nos esforçamos para garantir a manutenção de uma ordem que apenas nos beneficiasse, quase nunca, pensávamos no coletivo e nos que estavam na periferia. Fomos, no mínimo, omissos.  


Agora, a favela nos incomoda. Os traficantes não são mais aqueles caras legais que nos forneciam o baseado nosso de cada dia. E os pobres? Os pobres querem ter direitos, querem poder andar livremente por aí, querem até uma tal de igualdade. Assim não dá! 


A nossa Constituição garante a qualquer brasileiro o direito à defesa e a uma pena justa prevista no Código Penal, mesmo que esse seja um Amarildo qualquer.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Professor: profissão vítima





Sei que quando se fala de educação qualquer análise superficial destoa e pode parecer leviana.  Sei que o “buraco é muito mais embaixo” e a situação é bem mais complexa. Não tenho a intenção de apontar todos os problemas da educação e nem tenho a solução para tais problemas. Quero discutir aqui um aspecto que a muito me incomoda que é a questão da auto piedade que o professor (enquanto categoria) sente por si mesmo.


Sou educador e me incomoda quando na sala dos professores, ou fora dela, os colegas começam a brincar dizendo: “ ...e então o ladrão identificou que a mulher que iria assaltar é professora e disse ‘tome sua bolsa de volta e uns trocados para a senhora comer alguma coisa’”; ou então,”professor é uma categoria que não deveria pagar imposto de renda” .


Trabalhei em uma escola pública que uma colega vendia balas e chicletes no recreio. Como se já não bastasse assumir uma relação de clientelismo com os próprios alunos ela ainda mercava dizendo: “ajude a pró pagar o aluguel atrasado!!!”. 


Que moral tem um profissional que precisa da esmola do ladrão? Ou da isenção de IR do governo? Ou ainda dos míseros centavos de crianças e adolescente de bairro de periferia para pagar o aluguel? 


Não se trata de baixos salários, muitos colegas não fazem jus a eles. Sabemos que a licenciatura de muitos não foi opção, mas foi o vestibular que conseguiu ser aprovado. Outros colegas, depois de formados e aprovados em concurso nunca mais ocuparam os bancos  escolares na condição de alunos. Existem ainda os que não leem e os que batem no peito dizendo que não gostam de ler.


Não quero tablet, notebook, isenção do imposto de renda, meia entrada em cinema e teatro. Quero poder sacar com orgulho o meu cartão de crédito e pagar tudo que eu quiser comprar com o meu salário sem ter que trabalhar três turnos e ter que fazer “bicos” por fora para complementar a renda.


Temos que reivindicar melhores salários e condições, não por que simplesmente ganhamos pouco, mas por que a nossa profissão é a mais importante de todas e eu estou preparado para assumi-la. Merecemos condições melhores por que o futuro da nação depende da qualidade do nosso trabalho. Não é dizendo que somos miseráveis que vamos conseguir bons salários e condições dignas, pelo contrário, já que esse discurso reforça “uma condição que já conhecíamos a respeito do trabalho do professor”. 


Vamos denunciar as nossas mazelas, mas mantendo a dignidade. Vamos brigar por melhores salários e condições mostrando para a sociedade nosso valor.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

A marcha das vadias e as vadias da marcha




Na Idade Média, o modelo de mulher começou a ser traçado pela Igreja Católica. Qualquer uma que não conservasse os modos e a pureza de Maria (a mãe de Jesus) era automaticamente  colocada em desacordo com a sociedade e por tanto estava vulnerável a todo tipo de mazela próprio de quem é marginalizada. Esse modelo de sociedade machista prevaleceu durante todos esses anos com uma ou outra concessão, mas seguindo a mesma formula.

A Marcha das vadias é um movimento originário do Canadá (2011) que rapidamente ganhou a simpatia do mundo, pois entre os seus objetivos está o de alertar a sociedade sobre o fato de que a mulher é dona do próprio corpo e que em pleno século XXI não pode existir uma única alegação que justifique estupro ou maus tratos a uma mulher.

É lógico pensar que a responsável desse modelo de sociedade é a própria Igreja Católica. É claro, ela é culpada!  Mas, não é certo que nesse momento que a Igreja se põe “nua” e exibe sua juventude em Copacabana tenhamos o direito de violentá-la, não temos o direito de violentar ninguém ou nada sob qualquer alegação.
Não dá para responsabilizar todo um movimento pela ação de alguns membros, sabemos que o ato que culminou com o vandalismo (palavra da moda) contra as imagens foi resultado de um pequeno grupo. Como disse o Papa Francisco sobre os escândalos que envolvem a Igreja “tem uma floresta inteira crescendo, mas o barulho de uma árvore caindo nos impede de ver”.  A Marcha das Vadias tem uma mensagem que precisa ser ouvida pela sociedade e não pode ser calada por umas poucas vadias que não souberam separar na Igreja as vadias das Marias.
Parodiando o movimento:

“Posso  rezar dez Ave Marias, mas a porra da Igreja é minha”