terça-feira, 13 de agosto de 2013

Lá ele, no Beirú



Na Bahia, a expressão “lá ele”, quer dizer “em mim não, em outra pessoa”. De uma forma geral tem conotação sexual. E é uma expressão que rebate o duplo sentido de frases que nós baianos sempre nos apressamos em rejeitar. “Lá ele”, é algo que eu nem desejo para alguém conhecido. “Ele”, é alguém distante, alguém que não conheço.
Alguns exemplos dessa expressão:
Você TOMOU cerveja?  “Lá ele, eu não tomo nada, eu bebo”
Que calor SENTE-SE aqui!  “Lá ele, estou bem de pé mesmo”

João Jorge Amado, em seu livro Lá ele ou o Esparro na Bahia,  associa  a expressão a uma cilada, arapuca, armadilha (Sinônimos de Esparro). Pois é, baiano aqui fica esperto, não cai em esparrela.  Mas sempre tem um sabido que tenta nos pegar (lá ele).
O governo do Brasil e da Bahia parece que, assimilaram essa expressão rapidinho e mandam outras pessoas para locais onde ele não consegue, ou não quer, resolver o problema principal. Um exemplo disso é o Programa Mais Médico, do Governo Federal: não tem hospital equipado, não tem equipe de apoio, não tem medicamentos... e o governo diz: vou mandar lá ele aí, sozinho, resolver o problema.

Aqui em Salvador, o Bairro de Tancredo Neves (antigo Beirú), um dos mais violentos da cidade, onde na semana passada, traficantes queimaram 5 ônibus e 1 moto no final de linha em represália a operação Centauro, da SSP-Ba que ainda está acontecendo. Onde a polícia só entra em grupo fortemente armado; onde os motoristas de ônibus se recusam a completar a viagem até o fim de linha por medo; onde moradores são impedidos de passar em determinadas ruas e onde repórteres são desaconselhados a entrar no Bairro. Esse é o lugar que a Secretaria de Educação quer forçar os professores a voltar as aulas sem nos oferecer nenhuma garantia.
 
De certo, a comunidade é a mais penalizada com tanta violência. Mas não dá para transformar a atividade profissional em uma atividade de risco. Trabalhamos para ganhar a vida! É fácil fazer valer um calendário letivo a partir de uma sala com ar-condicionado dentro de uma repartição pública. É só mandar que LÁ ELE vai sair da sua casa para dar aula no meio do fogo cruzado.







quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Onde estão os Amarildos?





A despeito do sumiço do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, na favela pacificada da Rocinha, no Rio de Janeiro, o governador Sérgio Cabral afirmou que “antes da UPP, sumiam 100 Amarildos todos os meses”.  Os comentários que se seguiram a essa reportagem do Uol Notícias me fizeram lembrar de um personagem de Chico Anysio , o político Justo Veríssimo que tinha como bordão: “Eu odeio pobre!”,  “ Eu quero é que o pobre se exploda!”.


Em outro momento, Caetano Veloso, em sua música Haiti já denunciava: “E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo/Diante da chacina/ 111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos/.../E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos “.


O sumiço de um ou de cem Amarildos, a morte de um ou cento e onze presos e a nossa sociedade diz: “eu não me importo”; “não é comigo, ele era traficante”; “eu quero que pobre se exploda”. 



Nós elite, classe média ou não, pagadores de impostos, que conquistamos nosso patrimônio com tanto esforço, inventamos a miséria. A favela é nossa filha. Durante anos nos esforçamos para garantir a manutenção de uma ordem que apenas nos beneficiasse, quase nunca, pensávamos no coletivo e nos que estavam na periferia. Fomos, no mínimo, omissos.  


Agora, a favela nos incomoda. Os traficantes não são mais aqueles caras legais que nos forneciam o baseado nosso de cada dia. E os pobres? Os pobres querem ter direitos, querem poder andar livremente por aí, querem até uma tal de igualdade. Assim não dá! 


A nossa Constituição garante a qualquer brasileiro o direito à defesa e a uma pena justa prevista no Código Penal, mesmo que esse seja um Amarildo qualquer.