sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A quem interessa o fim da EJA?


A Educação de Jovens e Adultos (EJA), foi sendo moldada no Brasil a partir de 1934 com o Plano Nacional de Educação que já estabelecia metas do ensino primário integral, gratuito e de frequência obrigatória, extensiva para adultos. Com Paulo Freire, na década de 60, a EJA ganhou características próprias que a diferenciava do ensino regular, tornando-a muito mais atrativa, próxima e eficaz da realidade da população analfabeta.
Durante o governo militar, na década de 70 e 80, surge o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), que como o nome diz limitava-se a levar a alfabetização funcional a população de jovens e adultos, principalmente das zonas rurais e periferias. O Mobral se diferenciava do método de Paulo Freire, basicamente, por possuir um material uniforme, sem levar em consideração as características particulares de cada comunidade atendida, sem uma cumplicidade entre o método e o estudante e sem despertar uma consciência crítica.
Desde aquela época, reclama-se do alto custo para manutenção da EJA, mesmo que lá na sala de aula a estrutura esteja abaixo das necessidades mínimas. Outros tantos técnicos das secretarias de educação e políticos alegavam que não valia a pena ‘investir em quem não consegue aprender’. E ainda quem dissesse que ‘os analfabetos vão morrer em poucas décadas e que era necessário focar na educação das crianças’ e que ‘o retorno econômico da EJA para o Brasil é mínimo’.
E com essa visão distorcida, ignorante e discriminatória a EJA foi sendo empurrada até então. Os professores, sem material, sem formação adequada, vivendo em ambientes hostis (tendo muitas vezes de sair correndo da escola à noite por conta dos episódios de violência na comunidade), são tidos como preguiçosos e incapazes.
Desde que estou na rede municipal de educação de Salvador ouvi muitos gestores dizendo que o turno noturno não lhes acrescentava um centavo ao seu salário e que se criássemos problemas eles podiam acabar com o turno a qualquer momento. É eu sei isso é assédio – mas é assim que acontece. Tenho até uma advertência escrita, que eu guardo como troféu, quando eu ousei discordar de uma vice quando ela ameaçou senhoras e senhores de idade dizendo-lhes que “o noturno não era prioridade da escola”.
Hoje, nos deparamos com mudanças no sistema de matrícula da EJA, que entre outras limita o prazo de inscrição a janeiro, onde tradicionalmente esse público busca a escola depois do carnaval, e transfere alunos para “escolas polos” muitas vezes distantes da residência dos alunos. Gerando uma dificuldade para inserção desse aluno no sistema.
Por coincidência ou não empurra professores e coordenadores lotados no noturno para o diurno onde existe um déficit devido à necessidade de cumprimento da reserva de jornada das pedagogas daquele turno. Para mim, um jeito fácil e conveniente de resolver essa demanda sem fazer concurso e sem contratar os REDAS.

Como podemos perceber a educação de jovens e adultos ainda não é vista como uma forma proativa de minorar o problema da violência, do desemprego, da baixa renda. Sem contar que pais com maior escolaridade levam os filhos a avançar ainda mais nos estudos. Sem isso, oremos!

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